Acordo com a cama embalada pelo "nem sempre" doce balanço das ondas. Olho pela escotilha do meu camarote e o reflexo do mar ofusca meus olhos. Tenho que levantar pois começa mais um dia de labuta.
Da "janela do meu escritório" posso ver baleias, tubarões, golfinhos e muitos peixes. O nascer e o pôr do Sol é um espetáculo à parte. Gosto de trabalhar sobre o mar e sentir a força do oceano. É um dos privilégios de trabalhar aqui, confinado nesse pequeno pedaço de metal flutuante.
Nas horas de folga, comer é a maneira que meu cérebro usa para combater a ansiedade. A psicologia "barriga-cheia: tudo perfeito" funciona para acalmar os ânimos. A pizza é servida em grandes tabuleiros quadrados. Existe um certo conforto, mas o famoso trio "cama, comida e roupa lavada" só pode ser perfeito em terra firme.
Ter privacidade dividindo camarote com mais três pessoa é complicado, ainda mais para uma pessoa que gosta de curtir momentos de solidão como eu. Meu isolamento só é possível fechando a cortina do meu beliche. Meu pequeno cafofo é decorado com fotos da minha esposa no teto que, de tão baixo, é comum eu dar umas cabeçadas ao acordar na madrugada.
A comunicação com o mundo externo é feita pela internet e telefone. Notícias das pessoas queridas atravessam o oceano pelos cabos submarinos para chegar aos meus ouvidos. E nesses momentos me sinto um pouco expectador da minha própria vida, que vai passando diante dos meus olhos. É o preço de trabalhar num ambiente onde a corrosão, através da maresia, acaba destruindo os mais resistentes metais e, de certa forma, também corrói meu corpo.
Petrobrás P-20. 13-27 abril de 2009