terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

O Tempo e as Montanhas

Domingo passado subi o Morro do Cortiço para ver o pôr do Sol com uns amigos. Sempre que retorno a uma montanha um filme se passa na minha cabeça, revivo todos os momentos passados ali antes. Me lembro de conversas, risos, brincadeiras, tombos. Me lembro de todas as pessoas que estiveram comigo e do que vivemos. Nesse dia do Cortiço, eu e meu primo Renan resolvemos descer a montanha correndo, pulando pedras, tropeçando em raízes. Já estava anoitecendo e isso só fez aumentar a graça da brincadeira. Naquele momento devo ter voltado uns 15 anos da minha vida, voltei a ser a criança que sempre apostava “corrida-maluca” com meus primos, descendo as montanhas aos trancos e barrancos só para não ser a “mulher do padre”.

Grande parte dos melhores momentos da minha vida eu passei nas montanhas, cercado de amigos. Amizades que se fortalecem pelos papos numa noite estrelada, vendo as luzes da cidade, pequenina, abaixo. Conversas que viram a noite dentro de uma barraca apertada e bagunçada.

Me lembro da primeira vez que meus irmãos resolveram me acompanhar. Eu, meu primo Eduardo e o grande amigo Fernando íamos fazer a puxada travessia Petrópolis-Teresópolis (3 dias de caminhada, 42 kms atravessando vários vales e grandes montanhas) e meus irmãos resolveram ir, mesmo com eu falando que eles não iam agüentar... O Eric, o mais novo, era uma criança ainda. No segundo dia ele acabou se separando do grupo e se perdeu. Eu demorei a sentir sua falta. Quando o grupo se reuniu e eu vi que ele não estava me desesperei. Eu só pensava no que minha mãe ia fazer quando eu chegasse em casa sem meu irmão. Eu e Eduardo voltamos a trilha gritando seu nome. Depois de uns agoniantes minutos, ele respondeu. Gritava: “Estou no cocoruco, estou no cocoruco!”. A gente não tinha nem idéia do que ele estava falando. Finalmente, acabamos o achando no topo de uma pedra, sentadinho. Achamos seu “cocoruco”!

Nosso grupo de amigos vai ganhando forças, criamos um clube chamado CAMP (Clube de Amigos Montanhistas de Petrópolis). Eduardo era o presidente e eu o vice. Criamos uma logomarca e fizemos várias camisetas. O grupo ia ganhando cada vez mais adeptos. Tínhamos uma programação de caminhadas pro ano inteiro, todo final de semana a gente subia uma montanha. A Kombi do Eduardo sempre estava lotada. Esta se tornou nosso veículo oficial e ganhou até um adesivo na lateral com nossa marca. Viajamos bastante: Parque de Ibitipoca, Serra da Bocaina, Parque da Tijuca, Agulhas Negras, etc. Época muito boa que eu vou guardar pra sempre na minha memória e através de muitas fotos.

Motivado pelo Eduardo, comecei a praticar escalada em rocha. Todos aqueles equipamentos me fascinavam. Construímos um muro de escalada na sua casa também, para treinar sempre. Eu procurava livros e filmes sobre montanhas e escaladas. Tudo isso passou a se tornar meu estilo de vida. Hoje, essas influências estão presentes até no meu trabalho de alpinista industrial. É como uma conseqüência natural disso tudo.

O tempo passa, os sonhos aumentam. Hoje posso pensar seriamente em botar em prática antigos sonhos. Um dia ainda vou fazer uma grande montanha nevada. O Aconcágua, na Argentina, serpenteia pela minha cabeça há um bom tempo.

Humanos envelhecem, montanhas não. Areias do tempo continuam correndo, gerações de humanos passam. E elas continuam imponentes, da mesma forma como sempre foram. Algumas, intocadas. E vão sempre continuar no mesmo lugar, esperando os que se permitirem encarar seus desafios e desfrutar suas belezas. Você pode conseguir conquistá-la, vencê-la jamais!

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Orkutcídio

No meu último trabalho offshore, conheci o Mestre de Cabotagem Lucrécio. A função de um Mestre de Cabotagem é zelar pela navegação de uma embarcação e todos seus equipamentos de segurança, tais como bóias, baleeiras, botes de resgate, equipamentos de combate à incêndio, etc... O Lucrécio trabalha na plataforma Etesco Millennium, ele a trouxe dos Estados Unidos, numa longa e demorada viagem atravessando o Oceano Atlântico. Isso não foi nada, perto das mirabolantes histórias de sua vida.

Sentados na popa do convés principal, o velho Lobo do Mar me contava sua vida. Ele já navegou pelos 7 mares, rodou o mundo. Ele me contava histórias de longas viagens que fazia do Brasil pro Japão, sem escalas. Viagens que chegavam a durar 4 meses, em longos navios cargueiros. Me contou de tempestades em alto mar, que afundaram o navio que ele estava, certa vez. Me contou uma vez que seu navio começou a ser puxado por um furacão, mesmo com toda força dos motores ligados. Este foi parar a poucos metros da praia, quase encalhou. Quando ele achava que estava tudo perdido, o furacão se desfez, quase que por milagre, e o navio ganhou forças novamente.

Eu gosto e admiro pessoas assim. Conversar olho no olho, sentir a emoção que a pessoa transmite ao falar, seus gestos. Isso é uma coisa impossível de acontecer, mesmo com toda tecnologia, através de um papo pela Internet, por exemplo. Certas emoções, sentimentos, nunca vão ser realmente transmitidos com perfeição e exatidão através de um papo no MSN. Amizades vão muito além de um mandar um scrap no Orkut, ou um depoimento. Nada substitui palavras faladas pessoalmente, um abraço, um beijo.

Você pode conhecer pessoas maravilhosas no Orkut, mas com certeza esse primeiro contato nunca chegará aos pés de um encontro real, e acaba até perdendo um pouco o encanto. Em vez de tentar conhecer uma pessoa olhando suas comunidades, não seria melhor descobrir isso numa conversa? Grandes perfis, muitas fotos, podem esconder realmente o que a pessoa é. 785 amigos não significam que a pessoa realmente tenha amigos verdadeiros, que pode contar quando realmente precisa de um ombro amigo, seja para desabafar ou contar uma alegria.

E foi pensando nisso que resolvi sair do Orkut. Meus verdadeiros amigos sabem meu telefone, sabem onde eu moro. Sabem onde me encontrar. Não vou mais procurar pessoas que me pareçam interessantes, vou deixar isso por conta do acaso, fora do mundo virtual.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Diário de Bordo

Dia 3 de fevereiro de 2007, aeroporto de Campos dos Goytacazes. Já estava na hora de pegar carona no passarinho de prata que me levaria pro oceano novamente. Dessa vez, minha ilha de ferro, minha casa por 14 dias seria a velha e enferrujada Plataforma de Petróleo Garoupa (PGP-1).

Depois de cerca de meia hora de vôo de helicóptero, sobrevoando o belo oceano num dia lindo de céu azul, botei meus pés na gigante plataforma fixa ao fundo do mar.

Meu cotidiano muda. Passo a acordar bem cedo todos os dias, me alimentar em horários regulares, viver num ambiente confinado dividindo o camarote com 5 pessoas estranhas. O trabalho era tranqüilo, junto com meus 4 amigos de trabalho tínhamos a missão de pintar uma baleeira (espécie de bote de resgate e emergência), usando técnicas de alpinismo industrial.

Assim que cheguei fui informado que tinha uma pessoa embarcada que queria me ver, mas não fiquei sabendo quem era. Fiquei surpreso ao passar pela oficina mecânica e ver um rosto familiar. Era o velho Manoel Lima, um grande amigo que me ajudou muito quando comecei a trabalhar embarcado como mecânico de manutenção, no meu primeiro embarque. Eu tinha uns 18 anos, era o mais novo da plataforma de Pampo (PPM-1) e com uma responsabilidade enorme. Tudo ali era novo pra mim. O velho Lima foi o primeiro a se aproximar e falou que ia “tomar conta” de mim. Logo ele se intitulou meu “Pai Preto” e me ajudava em tudo. Me lembro das horas do almoço, que ele enchia meu prato de comida e falava que eu tinha que me alimentar bem. Foi uma boa e grande surpresa reencontrá-lo, trabalhando firme e forte como sempre, apesar da idade. Conversamos muito.

Com a equipe de alpinismo entrosada o trabalho era bem calmo e muito divertido, dava pra rir bastante com o Adriano “Garrote” e suas musiquinhas. Marcos “Giraya” nos divertia com suas performances ninja e suas caretas engraçadas. Marcus Vagner era o supervisor, tranqüilo e competente, deixava o trabalho na nossa mão e ia cuidar das suas responsabilidades. Mais tarde se revelaria um homem de opinião forte, lutando pelos nossos direitos. O único que eu não conhecia era o Rômulo, inspetor de pintura. Muito gente boa, sua maior preocupação era da gente acabar logo o trabalho pra ele poder passar o carnaval em terra com sua namorada.

Meu maior passatempo nas horas de folga era ler o livro “Linha D’Água” do Amyr Klink. Também ficava na internet quando conseguia marcar um horário. Procurava dormir bastante e controlar a gula. Com a ansiedade aumentando eu tendia a comer cada vez mais.

Com o passar dos dias, as coisas caminhavam pra rotina. Eis que surge uma novidade. Ao lado de PGP-1 encosta a plataforma Etesco Millennium, conhecida como Flotel. Trata-se de uma plataforma de petróleo adaptada para servir unicamente como uma espécie de hotel flutuante. Um grande contingente de trabalhadores ficaria hospedado no Flotel, trabalhariam normalmente em PGP-1 e depois retornariam após cada dia de trabalho. A passagem seria feita através de uma passarela suspensa chamada “Gangway”. O problema é que durante a montagem da passarela o transbordo entre as plataformas seria feito através de um barco rebocador, o Leroy Tide. E isso se tornou um fardo pesado para nós. Entrava-se numa cesta, até 8 pessoas de cada vez e esta era puxada pelo guindaste e levada até o barco. Depois de todos estarem no barco era a vez de entrar na cesta novamente, dessa vez para ser puxado pra o Flotel. No primeiro dia foi uma maravilha, com o mar calmo e ventos baixos, tiramos até fotos e gostamos da experiência.

Fiquei impressionado ao chegar no Flotel. É uma plataforma toda reformada, tudo com cheiro de novo. Essa plataforma veio dos Estados Unidos direto para a Bacia de Campos, para ser usada pela primeira vez. Vários gringos americanos e ucranianos embarcados. Nós fomos a primeira turma, os primeiros “hóspedes” aqui no Brasil. O Mestre de Cabotagem nos levou para conhecer a unidade, um primor. Acomodações novas, limpeza impecável, um refeitório enorme e bonito, academia com aparelhos nunca usados, piscina, sauna, sala de jogos, etc... A melhor plataforma que já embarquei, muito melhor que todas as da Petrobrás que já passei. O único inconveniente era que a plataforma ainda estava sem Internet e só possuía 2 telefones por satélite, então ficamos praticamente sem comunicação externa. O problema só seria resolvido depois da instalação de cabos de fibra ótica.

No dia seguinte acordei cedo e me preparei pra fazer o transbordo para PGP-1. Fiquei assustado pois o mar estava bem agitado, com ventos fortes. Mas nos garantiram que as condições estavam dentro dos limites para essa manobra. Fui na primeira “cestada” e me arrependi. Assim que chegamos no barco começou a chover bastante. Dentro do barco percebi o real tamanho do swell. Ondas que batiam e lavavam todo o convés do barco. Borrifos de água salgada por todos os lados. Naquele momento eu entendi muito bem a forma como o Amyr Klink descrevia uma tempestade em alto mar, senti na pele. Para fugir da chuva resolvi entrar no casario do barco e esse foi meu maior erro. Ambiente fechado, balançando muito. Eu não tinha nenhum ponto fixo para olhar, tudo rodava. E pra piorar ainda tinha o cheiro de óleo do motor do barco. Comecei a passar mal, muito mal. Saí do casario, preferi ficar na chuva. Fui o primeiro a entrar na cesta e logo cheguei na plataforma, verde. Eu e várias pessoas fomos pra enfermaria e ficou decidido que não trabalharíamos aquele dia. Providenciaram roupa seca já que nossos macacões estavam encharcados. Depois de algumas horas de molho fomos informados que a Marinha deu um sinal de alerta vermelho para todas as plataformas e embarcações devido a formação de um ciclone extra-tropical no Sul. Seus reflexos já começavam a ser sentidos, o mar seguia agitando e os ventos aumentando gradativamente. A previsão metereológica indicava condições ruins para os próximos 2 dias. Foi decidido então que voltaríamos para o Flotel rapidamente, antes que as condições piorassem ainda mais. Novamente enfrentamos o mar no rebocador. Não chovia mais, fiquei do lado de fora no convés, me equilibrando. Dessa vez ocorreu tudo bem.

O Flotel, por ser uma plataforma flutuante, balançava muito. Eu andava como um bêbado pelos imensos corredores. Deitado na cama me sentia como se tivesse de ressaca, tudo parecia girar. Dava pra escutar um barulho de água correndo permanentemente, provavelmente da rede de esgoto, num movimento constante. Barulho de portas que se abrem e fecham sozinhas a noite toda, com seus ruídos característicos. As pessoas desenvolvem naturalmente outra forma de andar, com as pernas mais abertas para melhorar o equilíbrio. O engraçado é quando você chega em terra firme e continua andando igual um pingüim!

14º dia de embarque, eu trabalhava ansioso, contando os minutos para acabar o último dia de trabalho. No dia seguinte eu iria embora.Eu estava com a equipe pintando em cima da baleeira quando apareceu o supervisor Marcus Vagner, com uma notícia que ia me abalar. A nossa empresa programou nosso re-embarque para domingo sem nem ao menos nos comunicar. Desceríamos no sábado, ficaríamos num hotel em Campos para embarcar novamente no domingo. O vôo já estava programado com nosso nome, se a gente não embarcasse teríamos que pagar uma multa, o preço do vôo. Aquela notícia acabou com nosso dia, trabalhamos revoltados com a empresa. Ela poderia ter programado outros funcionários que estavam de “standby” em casa, mas esses “espertos” devem ter desligado o celular e sumido do mapa pra passar o carnaval em casa. Não tinha mais jeito, estávamos condenados a passar o carnaval embarcado. E o pior, meu aniversário também.

Desembarcamos sábado e fomos direto pro hotel São Thomé, eu e Rômulo. O hotel fica de frente pra praia do Farol. Fomos pra praia e tomamos umas cervejas, eu precisava relaxar um pouco e me desligar do clima tenso que se instalara na plataforma. Bebi um pouco além da conta. Fiquei surpreso quando deitei na cama do hotel, pois ela também girava! Depois resolvi tomar um banho. Acordei rapidinho depois de levar um choque no chuveiro. Na mesma hora eu pensei numa frase que o Adriano falava, ele dizia ser um homem de muito azar: “Quando meu pai me fez devia ter uma coruja cantando em cima do telhado”. Naquele momento incorporei a frase, me senti o homem mais azarado do mundo.

Domingo, dia do embarque. Chegamos em cima da hora no aeroporto, quase perdemos o vôo por culpa do motorista da empresa que atrasou pra nos pegar no hotel. Equipe reunida mais uma vez, mas com mudanças: sai Adriano – que ia entrar de férias – e entra Cristiano. Depois do “check in” das malas, um membro do time foi convidado gentilmente para fazer teste do bafômetro para poder embarcar ( não fui eu e também não falo o nome). Mas deu tudo certo, embarcamos com destino ao Flotel novamente.

As pessoas da plataforma estranharam o fato de nos ver ali novamente. Eu disse que a nossa empresa é pequena, só tinha nós de alpinistas e um funcionário no escritório que programa os embarques (Maldito funcionário, diga-se de passagem). Voltei para o mesmo camarote e encontrei tudo desarrumado, de jeitinho que eu deixei. Eu e Giraya morremos de rir quando vimos minhas 3 cuecas esquecidas dentro da secadora no quarto.

Fomos informados que ocorreram mudanças no procedimento do transbordo. Ficamos felizes em saber que agora seria feito por helicóptero, todos os dias. Mais felizes ainda com a certeza que essa mudança, em grande parte, foi por nossa (alpinistas) luta, reivindicando condições mais seguras. Ponto para a Petrobrás.

Segunda, dia 19 de fevereiro. Dia do meu aniversário. Sentia que não ia ser um bom dia. Estava eu trabalhando pendurado embaixo da baleeira num “loop”, várias cordas. De repente toca o alarme da plataforma, alertando para um vazamento de gás. Correria geral para sair e ir para o ponto de encontro, onde fazem uma chamada de todas as pessoas. Depois de alguns momentos tensos, tudo voltou ao normal. Foi como um lembrete para não nos deixar esquecer do perigo do lugar que trabalhamos. O trabalho logo volta ao normal. De noitinha meu grande amigo Nelson me liga para me dar os parabéns. Logo em seguida minha mãe também ligou. Antes de dormir eu e Rômulo decidimos bater um papo no heliponto. O mar resolve me dar um presente de aniversário: vários golfinhos brincando pertinho da plataforma. Fui dormir um pouco mais contente.

Nosso trabalho na baleeira finalmente está chegando ao fim. Pra minha alegria meu vôo já até tinha sido marcado. Eu e Cristiano desceríamos na sexta, o resto da equipe ficaria até sábado para arrumar e desembarcar nosso material de trabalho que estava a bordo da embarcação.

“Atenção guarnição do heliponto, equipe do bote de resgate. Atenção passageiros com destino a Macaé. Aeronave 10 minutos fora”

Fico olhando pela janela do helicóptero, vendo a baleeira bonitinha pintada, se destacando das outras. As plataformas vão ficando pequenas até sumirem do alcance das vistas. Logo em seguida, pousamos em terra firme, totalizando 20 dias embarcados. Agora é hora de ir correndo pra casa, matar a saudade de todos. É bom saber aproveitar bastante o tempo aqui em terra. Diferente de quando estamos embarcados, as horas e os dias passam rápido demais.